Tenista argelina escreve carta emocionada a Thiem: «Querido Dominic, não arruínes isto»

Tenista argelina escreve carta emocionada a Thiem: «Querido Dominic, não arruínes isto»

Por Bola Amarela - maio 10, 2020
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Ines Ibbou, antiga top 25 mundial de juniores e atualmente no 620.º posto do ranking WTA aos 21 anos, escreveu este domingo uma carta aberta a Dominic Thiem, austríaco que se revelou contra o Fundo de Apoio aos jogadores, por considerar que deve ser ele a decidir quem ajudar. O austríaco de 26 anos nunca afirmou que não queria ajudar os seus companheiros, mas assegurou que há tenistas a quem não gostaria de dar o seu dinheiro, mas as suas palavras — partilhadas por muitos tenistas de topo que entretanto também têm vindo a concordar com ele, como Guido Pella ou Matteo Berrettini — mereceram uma resposta agressiva por parte de muitos companheiros.

É o caso de Ibbou, que explicou numa extensa mensagem — e o vídeo narrado por ela durante 10 minutos — as dificuldades da sua carreira e a forma como nasceu num contexto totalmente diferente do atual número três do Mundo.

A CARTA ABERTA

“Querido Dominic, depois de ler as suas declarações, vi-me a pensar como seria a minha carreira e depois a minha vida se estivesse na sua pele. Sim, como é ser o Dominic Thiem? Então comecei a ver como seria se os meus pais fossem ambos treinadores de ténis e me tivessem apoiado quando peguei na raquete pela primeira vez aos 6 anos e instantaneamente me apaixonei pela modalidade.

Enquanto crescia na Argélia, numa modesta família e com pais que nada tinham a ver com ténis. Não posso mudar isso e não os culpo por isso. Ninguém escolhe onde nasce. Percebo hoje em dia  que sou abençoada por ter pais como os meus que amo mais que tudo e que não trocaria por nada. Num país como o meu não é fácil ser uma atleta e não posso agradecer o suficiente aquilo que os meus pais sacrificaram para que eu pudesse seguir o meu sonho. Se você soubesse, Dominic…

Apesar de tudo, mesmo não tendo os meus pais como técnicos, pudemos pelo menos contar com as facilidade locais … ops, você sabia que na Argélia são muito raros os torneios juvenis e não tem nenhum torneio sequer da ITF, ATP ou WTA? Não há um técnico sequer de nível internacional? E não há um único court coberto? Não sei como foi para você, mas para nós aqui se chover por uma semana, treinamos a nossa esquerda no ginásio…

Nunca sabíamos em que court iríamos treinar, se era em relva ou terra batida africana, como dizem. Mas não me leve a mal, isso não me levou a deixar de construir o meu caminho e ser uma das melhores jogadoras aos 14 anos. E ganhei meus primeiros pontos WTA vencendo um torneio de 10 mil dessa forma. Bem impressionante, não é? E assim como você atingir o topo do ténis juvenil. Não fui top 10, mas fui 23 do Mundo, muito bom para uma africana, não é? Foi tão improvável que muitos jornalistas disseram que era um milagre. Muito poucas africanas fizeram isso, disseram-me na altura. E ninguém no meu país…

Se eu fizesse parte do seu Mundo mágico, provavelmente teria chamado atenção de muitos patrocinadores e a Federação tomaria conta de mim, mas não aconteceu nada disso. Nike? Wilson? Prince? HEAD? Adidas? Essas marcas simplesmente não existem na Argélia. Tirando alguns equipamentos e apoio de pequenas empresas, eu recebi o mínimo para cobrir a minha participação nos Grand Slams juvenis.

Fiquei a pensar o que poderia ter mudado nesse período se eu fosse parte do seu círculo, partilhando o mesmo ambiente, regras, e sendo capaz de decidir em que momento poderia tornar-me profissional? Qual impacto teria um investimento mais justo na minha carreira? Teria mudado a minha vida toda. Eu era a melhor tenista júnior do país, entre as melhores do Mundo e nem um cêntimo ganhei com isso. Irónico, não acha? Não tenho certeza se isso tenha acontecido no seu país ou em algum país europeu, mas isso não me parou, pois como se diz… das trevas vem a luz. E quando tudo estava a cair e a levar-me ao fim da carreira, fui sortuda o suficiente de uma mão me ter ajudado, pessoas que gostam de mim e que me deram o mínimo para comer e um lugar para dormir em torneios e na vida. Outros ajudaram-me com equipamentos. A minha situação estava sem esperança, mas conseguir voltar a rumo certo…

Mesmo assim a vida pode ser dura às vezes e lesionei-me no pior momento. No momento em que a ITF mudou as regras. Não sei se o afetou diremente (ao Thiem), mas quem é que quer saber disso? Recursos financeiros são importantes para voltar à boa forma pude realmente sentir isso naquele momento. Mesmo assim isso não me parou de novo, mesmo com todas as dificuldades consegui voltar ao ranking WTA.

Hoje tenho 21 anos, estou perto do top 600 WTA e ainda estou a perseguir o meu sonho pelo qual sacrifiquei  a minha infância, estudos, amizades, vida em família, vida financeira, férias, aniversários, a minha vida toda. Penso muitas vezes, Dominic, como é ter um treinador que te acompanhe pelo circuito? Um preparador físico? Um fisioterapeuta? Um treinador mental? Um staff dedicado? Vivo sozinha. Sou uma mulher que viaja pelo mundo sempre à procura dos bilhetes mais baratos, a sacrificar o meu tempo, treinos e recuperações à procura de um visto sem garantias, sabe porquê? Sem passadeira vermelha, passagem livre. Preciso de vistos para todos os países. Esforço-me para escolher um calendário que me permita ganhar mais pontos. Alojo-me mais longe dos torneios por redução de custos. Você muda de piso rápido para terra batida de uma semana para a outra como eu faço? Você termina torneios com buracos nos sapatos como eu? Dominic, deixa-me perguntar-te como se sente quando dá um presente aos seus pais? Como se sente os vê mais de uma semana por ano? Celebrar seu aniversário com eles? Não me lembro o último aniversário que celebrei com eles. Sim, todos esses sacrifícios fazem parte do jogo, mas sim, o meu desempenho em court é que deveria ditar o destino da minha carreira e não o dinheiro que eu tenho. Isso é totalmente injusto. Estou a lidar com isso todos os dias, sem reclamar. Constantemente a lutar, em silêncio.

Caro Dominic, ao contrário de você, muitos têm a minha realidade. Não é com o seu dinheiro que sobrevivemos até agora e ninguém lhe pediu nada, mas a iniciativa de alguns jogadores generosos, que mostraram compaixão com a classe, é tocante. Jogadores com vontade de espalhar solidariedade e acharem soluções para fazerem a diferença. Campeões a todos os custos. Dominic, esta inesperada crise está a colocar-nos num período desafiador e a revelar como as pessoas realmente são. Ajudar os jogadores é ajudar o ténis a sobreviver. O jogo é nobre. O significado do desporto é distinguir os mais talentosos, persistentes , os trabalhadores, os mais bravos. Ou você quer jogar sozinho em court? Digo-lhe, Dominic, não lhe pedimos nada a não ser um pouco de respeito e sacrifício. Jogadores como você fazem com que mantenha o meu sonho e, por favor, não arruíne isso”.

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